O sertão nosso de cada dia

Ispinho e Fulô de Patativa, Cia Carcarah Voador

Quando Maria Antônia, de 66 anos, escutou o som nordestino do baião e viu a atriz Cícera Carmo vestida com roupas de costura simples, chapéu de palha e sandálias de couro, carregando uma mala surrada pela ação do tempo, foi como se toda a lembrança de sua vida também estivesse entrando no teatro da EPG Hamilton Félix de Souza.

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Natural de Itabuna, na Bahia, a aposentada cresceu no sertão nordestino e assim como a personagem interpretada no espetáculo ‘Ispinhô e Fulô de Patativa’, chegou na ‘cidade grande’ carregando uma mala repleta de dor e sonhos. Um deles estava realizando ali mesmo, no local onde acontecia o Circuito de Cultura Popular. Quando moça, não teve oportunidade de estudar e agora busca um encontro com as palavras por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no CÉU Cumbica de Guarulhos.

O passeio pelo universo do poeta popular Patativa do Assaré foi encenado pela Cia Carcarah Voador. No palco, com a ajuda de objetos oriundos do sertão nordestino, – tais como a enxada, o rádio e a cabaça – o grupo santista retratou aspectos culturais importantes do homem simples do nordeste presentes na obra do cearense. A peça tem como cenário painéis que lembram as xilogravuras utilizadas para fazer as capas dos cordéis.

“É como se cada um dos materiais que estavam no palco tivesse sido colocado ali para fazer a gente lembrar da nossa terra. Senti que eu poderia ser a personagem que a atriz interpretava”, contou emocionada a pernambucana Celina Batista, de 51 anos, também estudante da EJA.

“Guarulhos tem uma grande quantidade de migrantes nordestinos e foi uma escolha muito assertiva trazer para cá um espetáculo que resgata a história de vida e a cultura de boa parte da plateia. Antes da apresentação já havíamos trabalhado essa temática em sala, para que cada aluno resgatasse suas próprias vivências e compartilhasse conosco. Em cena isso só foi reforçado, seja pela interpretação, pela música e pelos objetos. Foram encenadas as histórias de muitas vidas que não podem ser esquecidas”, afirma a diretora Adriana Nersessian Deyrmendjan.

Ao final do espetáculo, os atores Cicera Carmos e Vidah Santos participaram, ao lado da filha Duda, de uma roda de conversa com os espectadores do auditório sobre a simplicidade poética do cantador e autor sertanejo Patativa do Assaré e o universo do povo sofrido do sertão cearense.

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